Por que fotografo?

Para dar expressão ao meu sentido estético. 

Trecho de: Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões.

Canto I 106/106

No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?


Viva o fotojornalismo

Não tardou para que surgissem polêmicas envolvendo a foto do ano do World Press Photo 2017. Já era esperado. Nenhuma premiação é unânime. Haverá sempre quem pense que a escolha poderia ter sido outra.

A critica mais contundente, partiu do presidente do juri do prêmio, que em artigo publicado no The Guardian, alegou motivos morais para não aceitar a escolha da foto de Burhan Özbilici, que mostra o assassinato do embaixador Russo na Turquia, como a melhor do ano. 

Segundo Stuart Franklin, a foto incentiva e amplia a voz do terror no mundo e por isso ela não deveria ter sido escolhido. 

Eu discordo. O fotojornalismo tem um papel que vai na contramão da ampliação da voz do terror no mundo. Ele constrange e põe em seu lugar os monstros que insistem em surgir. 

Além disso, o fotojornalismo tem o dever de mostrar o que se passa com o mundo. E queira ou não é assim que anda o mundo, com pessoas a atirar contra os seus adversários e se gabando de verter sangue alheio em frente a um maior número de pessoas possíveis.

Para não esquecer

Ir à escola, estar com os amigos e tomar posse da herança cultural que os tempos nos deixaram, deveria ser a coisa mais acessível do mundo. No entanto, não é. Nem sempre há escola para ir. Quando há, nem sempre ela é devidamente acolhedora. Em outros casos, como o que sucedeu nos EUA, a escola se nega a aceitar a cumprir o seu dever.

Foi isso o que se passou em Little Rock, Arkansas em 1957. Naquela data a população local se negou a cumprir uma ordem judicial que dava plenos direitos a alunos negros de frequentarem escolas que outrora eram segregadas.


Na foto de Burt Glinn, vemos um jornalista entrevistando uma das nove estudantes afro-americana tentando frequentar a Little Rock Central High School, após o caso Brown vs Conselho de Educação, ser considerado inconstitucional. As crianças só terminaram aquele ano letivo porque o presidente Eisenhower interveio e mandou para cidade uma junta militar para servir de proteção federal às crianças, contra o ódio de alguns brancos.

Foto: Burt Glinn. Little Rock, Arkansas 1957.

E por falar em turbante


Salva-vidas para os náufragos.

O povo anda pedido nomes para salvadores da pátria. Não faltam eleitos para o posto.

Lá em A Vida de Galileu, Brecht escreveu: "INFELIZ A NAÇÃO QUE PRECISA DE HERÓIS".


Estou de acordo com o dramaturgo.

Com a palavra Miss Paglia

"A civilização é definida pelo direito e pela arte. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime nossa alma. Às vezes, a arte glorifica o direito, como no Egito; às vezes, desafia a lei, como no Romantismo.

O problema com abordagens marxistas que hoje permeiam o mundo acadêmico (via pós-estruturalismo e Escola de Frankfurt) é que o marxismo nada enxerga além da sociedade. O marxismo carece de metafísica – isto é, de uma investigação da relação do homem com o universo, inclusive a natureza. O marxismo também carece de psicologia: crê que os seres humanos são motivados apenas por necessidades e desejos materiais. O marxismo não consegue dar conta das infinitas refrações da consciência, das aspirações e das conquistas humanas.

Por não perceber a dimensão espiritual da vida, ele reduz reflexivamente a arte à ideologia, como se o objeto artístico não tivesse outro propósito ou significado além do econômico ou do político.


Hoje, ensinam aos estudantes a olhar a arte com ceticismo, por seus equívocos, suas parcialidades, suas omissões e ocultos jogos de poder. Admirar e honrar a arte, exceto quando transmite mensagens politicamente corretas, é considerado ingênuo e reacionário. Um único erudito marxista, Arnold Hauser, em seu épico estudo de 1951, A história social da arte, teve bom êxito na aplicação da análise marxista, sem perder a magia e o mistério da arte. E Hauser (uma das influências iniciais do meu trabalho) trabalhava com base na grande tradição da filologia alemã, animada por uma ética erudita que hoje se perdeu."

Retirado daqui 

Interesse

Interessa-me a fotografia centrada nos aspectos artísticos. Por artístico entendo a fotografia que diz muito mais do que aquilo que se pode perceber à primeira vista.

As ilusões fotográficas

Quem gosta de fotografia não pode deixar de pensar que ela, além de encantar, também tem o poder de induzir os espectadores em erro quanto às qualidades das pessoas e objetos fotografados.


Sabem muito bem disso os políticos que hoje não dão um passo sem ter ao seu lado o seu fotógrafo oficial. Ninguém quer correr o risco de ter sua imagem desfigurada por uma foto que sugira o indesejado.

O artístico não exclui o social


Quando falo de artístico em fotografia, algumas pessoas, logo associam isso à exclusão dos conteúdos socialmente relevantes. Nada pode ser mais equivocado do que este pensamento. A fotografia pode muito bem denunciar conteúdos sociais e ainda assim estar carregada de mensagens de índole artística.

Pobreza, violência, desigualdade são temas que importam a fotografia artística. Mas quem a faz, pensando apenas na mensagem imediata, não nos deixa ver que ela pode ir além de si mesma e inscrever-se em um tempo sem idade.

Compreendo que se queira fazer da fotografia uma arma de resistência e denuncia social. Isto é legitimo. Mas apenas mostrar, sem qualquer engenho, os desajustes sociais, não faz da foto um objeto relevante. Mesmo que se queria fazer isso com a melhor das intenções.

As fotografias de Joseph Koudelka da invasão de Praga e as cenas de guerra no Afeganistão de Anja Niedringhaus têm força. Exprimem ideias fortíssimas, a mais importante das quais é a de que a violência é sempre absurda e gratuita. Não vejo esta força que advém da linguagem estética nas fotografias de reportagem de hoje. A maioria delas são meros documentos literais, banais e infelizes em seus propósitos. Servem, quando muito, ao registro histórico.

As fotos de Anja Niedringraus que ilustram este post são poderosas e sobreviverão ao seu tempo, porque além de mostrar elas nos fazem ver os horrores da guerra. Elas são diferentes porque transmitem a mensagem de tal maneira que os espectadores a sinta em dimensão comovedora.


Lições

Há tempos deixei de encarar a fotografia como um passatempo. Hoje a vejo como uma saudável e estimulante forma de enriquecimento pessoal, que por seus ganhos, não deve ser computada nas horas de distração despretensiosa. Não são mortas as horas gastas em perspectivar o mundo e as pessoas que nele vão.

A boa literatura

Há textos que se eternizam. Os anos passam, os homens nascem, morrem e os livros sobrevivem a todos. Por isso que a boa literatura é uma arte atemporal. 

Cyrano de Bergerac é certamente um desses livros. Sua história é simples. Ela narra a malfada sorte de um homem apaixonado por uma mulher. 

Mas o livro não se resume a esse tema tão caro é precioso a literatura: o amor mal correspondido. Ele dá voltas em outros valiosos e indispensáveis temas. 

Um dos melhores momentos da trama, ocorre quando o inabalável caráter do herói, Cyrano de Bergerac, é posto em xeque por um corrupto senhor que o quer servil aos seus desmandos. 

A liberdade individual é então ardorosamente defendida por Cyrano num dos mais lindos e contundentes monólogos da literatura. 

Neste momento histórico em que o Brasil se encontra, esta mensagem deixada por Cyrano, bem nos pode serve de lição para nos recusarmos a vivermos de esmolas daqueles que nos querem sempre bajulando os seus favores.

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Não, muito obrigado!
Mas que fazer então?
Buscar um protetor poderoso, um patrão?
Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,
E lambe-lhe a cortiça e trepa então sem custo?
Usar, para atingir o cimo desejado,
de astúcia em vez de força? Oh! Não, muito obrigado.
Entrar para o canil dos poetas rafeiros,
Como eles dedicar versos aos financeiros
E fazer de bufão para que um potentado
Haja por bem servir? Oh! Não, muito obrigado.
Almoçar, cada dia, um sapo sem ter nojo,
Rustir o ventre por andar sempre de bojo,
Ter a rótula suja e fazer menos mal
Prontas deslocações da coluna dorsal?
Não, obrigado. Trazer o incensório suspenso
A um ídolo que viva entre nuvens de incenso?
Ganhar celebridade, aplausos e coroas
Num círculo de trinta ou quarenta pessoas?
Navegar, tendo em vez de remos madrigais
E, a tufarem-se a vela, os suspiros fatais
Das velhas, num derriço? Não, muito obrigado.
Ganhar fama de autor por haver publicado
Meus versos, mas pagando o livro aos editores?
Não, obrigado. Viver de esmolas e favores,
Como fazem alguns sandeus? Ver se alcanço renome
Com um soneto, se tanto, em vez de fazer mil,
Achar muito talento em qualquer imbecil?
Não, obrigado. Ter medo aos jornais, ser amigo
De elogios, dizer de mim para comigo:
“Ah, se o meu nome sair no jornal deste mês”!...
Calcular, ter na face impressa a palidez
Dos poltrões, preferir fazer uma visita
A bordar, carinhoso, uma estrofe bonita,
Ser da matilha, hedionda e vil, dos pretendentes,
Redigir petições e mendigar presentes?
Não, obrigado. Não, obrigado. Não, obrigado.
Mas...cantar. Mas viver num sonho alcandorado,
Calmo e feliz, o olhar seguro, a voz vibrante,
De quando em vez e, por capricho, petulante,
Por de trevés o feltro, e por um quase nada,
Dar um beijo na Musa ou dar uma estocada.
Nem um verso escrever que a mim me não pertença,
E apesar disso tudo, uma modéstia imensa:
Pagar-me com uma flor, ou um fruto apetecido,
Contanto que no meu pomar seja colhido,
E se enfim algum triunfo vier, mediante a sorte,
Não devê-lo a algum César por ser parte da corte.
E, em suma, desdenhando a hera vil que se esconde,
Não conseguindo ser o roble, cuja fronde
Mora perto do Azul e distante do pó,

Subir pouco, mas só, completamente só.