Contos Folclóricos Brasileiros - Marco Haurélio



CONTOS POPULARES DO SERTÃO DA BAHIA

RESENHA

HAURÉLIO, Marco. Contos folclóricos brasileiros. São Paulo: Paulus, 2010. 144 p.

Por Rogério Soares Brito[1]

Em todas as épocas os homens sempre encontraram bons motivos para ouvir ou contar histórias. As tradições populares, através de suas variadas manifestações culturais, encarregaram-se de manter vivas as inúmeras histórias que há tempos persistem no imaginário e são constantemente recontadas na forma de lendas, fábulas, contos, parábolas e histórias fantásticas.

Ecos de tempos passados, muitas histórias encantadoras e maravilhosas, que habitam o imaginário popular, têm sido exaustivamente estudadas por pesquisadores, historiadores, psicanalistas, além de inspirarem os trabalhos de escritores, como os irmãos Grimm, grandes coletores de contos, Charles Perrault, Jean de La Fontaine, Hans Christian Andersen, Monteiro Lobato entre outros. Marca indelével da cultura popular, a literatura oral segue o ritmo da espontaneidade do povo, suas crenças, tradições e festas.

Muitos foram os coletores de contos populares ao longo da história; seus enredos exóticos e personagens misteriosos despertam a curiosidade e a simpatia de um público variado, que não consegue ficar indiferente a essas narrativas. Só para ficar no Brasil, essas narrativas populares foram o foco de interesse de grandes estudiosos da cultura popular, entre eles estão Sílvio Romero, Amadeu Amaral, Aluísio de Almeida, Câmara Cascudo, Henriqueta Lisboa e outros. Porém, esses não são os seus criadores, elas são criações do povo, manifestações genuínas das capacidades criativas de populações historicamente marginalizadas.

Esse trabalho de pesquisa ou de recolhimento das narrativas populares nunca foi pacífico. Alguns estudiosos modificaram um pouco os relatos que coletaram. Outros simplesmente ignoraram os valiosos e exemplares conselhos contidos nas histórias e, por excessivo brio religioso, social ou político, resolveram mutilar os contos, caso do padre francês Antoine Galland. Responsável pela tradução da obra As mil e uma Noites para o Ocidente, ele interferiu diretamente na tradução ao deixar de fora inúmeras narrativas. Acreditava assim preservar as consciências religiosas das imoralidades que se ocultavam em várias histórias contadas pela princesa Cheherazade.

Todavia a literatura oral segue viva e conquistando mais e mais leitores, além de continuar atraindo o interesse de outros pesquisadores, caso do poeta, editor e folclorista Marco Haurélio, nome de prestígio no campo de estudo da cultura popular brasileira. Marco Haurélio tem atuado na linha de frente das ações de valorização e preservação da herança cultural do nosso povo, pesquisando, escrevendo e divulgando essa tradição através da literatura de cordel e de livros infantojuvenis que abordam sempre os temas da cultura popular.

Natural de Riacho de Santana, Bahia, esse jovem escritor, que em julho completou 36 anos, recolheu, entre os anos em que viveu na cidade vizinha a sua terra natal, Igaporã, enquanto cursava Letras na UNEB/Campus VI (Caetité – BA) e lecionava numa escola pública do ensino básico, uma centena de contos populares, lendas e fábulas, colhidas direto da fonte mais preciosa, as vozes de anciões sabiamente nutridas pela tradição popular.

 Abertura da seção Contos de encantamento ou maravilhosos (ilustração de maurício Negro)

O seu mais novo livro, Contos Folclóricos Brasileiros, editado pela Paulus e ilustrado por Maurício Negro, é fruto desse trabalho de pesquisa da cultura popular, que desde cedo seduziu o autor. O livro não traz na íntegra todas as histórias recolhidas pelo autor durante o período em que viveu em Igaporã, mas apenas algumas das narrativas, coletadas entre as cidades de Serra do Ramalho, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana, Igaporã, Caetité e Brumado.[2] Esse primeiro trabalho será ampliado num segundo livro, que além dos contos terá lendas e fábulas. Esse segundo trabalho está com data prevista ainda para este ano, e sairá pela Nova Alexandria, editora onde o autor trabalha como editor desde que saiu da Luzeiro, tradicional casa editorial de grandes cordelistas.

Nascido em uma família de trabalhadores rurais, Marco Haurélio ouviu, desde a mais tenra idade, de seu pai e de sua avó Luzia Josefina de Farias as deslumbrantes lendas, aventuras, cenas de amores e lutas religiosas, narradas saborosamente à luz de candeeiros movidos a querosene. Desse imaginário cheio de exotismo aprendeu as mais ricas e belas lições da vida em toda a sua maravilhosa diversidade. Dessas vivências é que ele tira a substância para os seus trabalhos, sempre associados ao universo da cultura e das tradições populares.

Com 36 contos, as narrativas contidas nesse livro abordam uma variedade de temas. Vão dos contos de animais em que os personagens, à moda das fábulas, personificam ações humanas, com fim moralizante, passando dos contos maravilhosos ou de encantamento onde as narrativas se desenrolam através das aventuras de personagens na busca de realizações emocionais, até, como é próprio da tradição cultural popular, narrativas com motivos religiosos, inspiradas nos evangelhos.

Outros temas, como os contos novelescos ou de amor e recompensa, contos jocosos ou humorísticos, contos de fórmula ou acumulativos e os contos de exemplo, completam a recolha. Os amantes das histórias dos irmãos Grimm e os leitores de Perrault reconhecerão de pronto os motivos de várias narrativas que aqui foram reincorporadas à tradição cultural do Nordeste. Uma característica dos contos populares é que eles podem sofrer transformações ao longo do tempo, porém sua essência é a mesma de um conto remoto, contado em época e lugar completamente diferente. Isso pode ser exemplificado pela máxima popular que diz: quem conta um conto aumenta um ponto.

Objetos de entretenimento, distração despretensiosa, são muitos os usos que se pode dar a essas histórias. O certo, no entanto, é que as várias narrativas presentes no imaginário popular, e agora reunidas nesse fabuloso trabalho, servem-se do extraordinário e encantatório, presentes nas histórias, como adereço à instrução dos homens, de todas as idades. A sabedoria contida no conto popular é capaz de levar o homem, nas palavras de Heinrich Zimmer, grande estudioso das culturas antigas, a uma consciência de si próprio, suas potencialidades, bem como ao reconhecimento de seus limites.

Despretensiosos em sua linguagem, os contos recolhidos e recontados por Marco Haurélio seguem fielmente os falares populares, tão variados e expressivos. Sem prejuízo ao entendimento do conto, ou ao trabalho de verter das fontes orais, cheias de redundância, para a escrita os vocábulos próprios e as expressões típicas dos contadores, os contos recolhidos aqui preservam as nuances idiomáticas que caracterizam a fala do povo. Veja-se um exemplo: no conto São Pedro e a questão das almas, a certa altura se lê “São Pedro foi o santo mais teimoso e arteiroso que já existiu...”. Arteiroso, expressão singular do vocabulário nordestino, aqui preservada. Familiarizados com essas expressões, os nordestinos, principalmente os da região onde foram recolhidos os contos, não encontrarão qualquer dificuldade em entender o significado da palavra. Os leitores de outras regiões terão o auxílio de um rico glossário atentamente preparado para desbaratar qualquer dúvida quanto aos significados regionais que abundam nos contos. Nele podemos ler: Arteiroso, sinônimo popular de teimoso e, em alguns casos, de inteligente.

Fonte inesgotável de saberes, os contos populares, assim como as lendas e fábulas, são criações inspiradas de civilizações antigas com o mais elevado propósito: corrigir quando parecem incorrigíveis as malversações, alertar quando os sinais ainda não são totalmente visíveis, fazendo vivos erros que, de tão graves e grosseiros, não deveriam tornar a se repetir.

As distrações que eles promovem, não escondem as mensagens profundas que são encenadas por animais e outros seres mágicos, a fim de divertir, entretendo. Jean de La Fontaine, autor francês que modernizou as fábulas do grego Esopo, quando falou a respeito do propósito de suas fábulas, disse: “Sirvo-me dos animais para instruir os homens”.
Os contos populares estão ricamente espalhados por todos os lugares do mundo. Migrando de região em região, reincorporam elementos sempre novos das várias civilizações por onde andaram. Puro alimento espiritual de um sem número de povos que, em sua maioria, já não existem, mas que permanecem vivas, através dos tempos, como testemunhas de épocas remotas, essas narrativas tradicionais encontraram pouso tranquilo e morada segura nos rincões “carrascosos” do Brasil, e aqui persistem, graças aos esforços e ao trabalho de homens como Marco Haurélio.

Essas histórias guardam íntima relação com aquilo que chamamos de identidade de um povo. Se elas desaparecerem, parte significativa da memória, sabiamente abrigada por anos no seio de corações ardentes, some, e com ela, o registro dos hábitos e costumes que compõem as tradições populares, elo entre o passado e o futuro de uma nação, também desaparece. Estímulo às consciências, leitura prazerosa, os contos contidos nesse saboroso livro entretêm, ensinando. Passatempo divertido, os contos populares também servem de pretexto para reunir os amigos e a família numa roda descontraída de leitura onde a imaginação cavalga por terras distantes.

Publicado em: Crítica & Debates, v. 1, n. 1, p. 1-4, jul./dez. 2010

[1] Professor Auxiliar do curso de Letras da UNEB/Campus VI. Especialista em Literatura Comparada em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC / 2008).


[2] Cidades baianas localizadas na região Sudoeste do Estado.

A estupidez

Foto: Retrato de um índio com o nome de Big Head, de 1905. (Biblioteca de S. Curtis Congresso / Edward)

Os Estados Unidos exterminou a sua população nativa em poucos anos de povoamento. Não contentes com a destruição física há anos investe na associação da memória de seus nativos às piores armas mortíferas de seu apocalíptico exército. Assim surgiu o míssil TOMAHAWK e o helicóptero BLACK HAWK. O que a intolerância não destruiu a estupidez não perdoa.

O munda infantil dos artistas espanhóis



Que mundo maravilhoso e enigmático não era aquele dos artistas espanhóis. Cheio de cores, formas inusuais, gestos inaugurais e traços surpreendentes. Mas o mais curioso ao pensar nos maiores artistas espanhóis do século XX, é perceber o quão distante, sua arte, muitas vezes parece estar daquele sentimento corrente, que associa o espanhol à figura do machão.

Quem ao vislumbrar esses trabalhos de Gaudí, Miró e Picasso, respectivamente, não encontra neles um quê de infantil, primitivo e rude no sentido inábil, frequentemente atribuído à criança que ensaia livremente a representação do mundo?


Mesmo Picasso, protótipo da fama espanhola aqui, quando expõe sua masculinidade na face feminina, (observem bem o rosto da figura) parece o fazer como uma daquelas crianças que pixa as portas dos banheiros incessantemente com a mesma figura.


Sem trégua. O país está em ebulição. Para os dias a fervura só aumentará.

Li nas redes sociais a seguinte nota do escritor Fernando Morais:

"Anos atrás recebi do então governador de Brasília Cristovam Buarque o "premio manuel bonfim", atribuído ao meu livro "Chatô, o rei do Brasil". Já pedi à Marília para localizar a placa de prata. Vou devolver. de golpista não quero nada. Nem prêmio".
Minha resposta ao Fernando Morais:

"Fernando Morais mostra como para o PT não há diferença entre partido, governo e estado. Não fui eu que dei o prêmio, foi o Governo do DF, selecionado pelo mérito de seu maravilhoso livro. Mas ele acha que foi uma bolsa-escritor. Porque, para ele, não há diferença entre partido-governante-governo-estado.


Que pena que nossos gênios estejam tão obtusos. E tão viciados no aparelhamento. O PT corrompeu mais do que a política, corrompeu a inteligência e o caráter. E aos poucos vão mostrando que a volta da Dilma por mais dois anos, com essa gente, vai embrutecer o País e seguir se apropriando do Estado. Pior que não tem juiz Moro para este tipo de roubo: da inteligência e do caráter. Ele não falou em devolver os dez mil que recebeu do prêmio. Na época eram dez mil dólares. Nem o que ele fazia no governo do Quercia".

Lições Americana



Dizem que as bibliotecas nas universidades americanas funcionam 24 horas por dia. Mesmo que ninguém esteja nelas, elas lá estão esperando quem queira delas tirar proveito. Há anos os americanos descobriram aquilo que a gente parece distante de saber; que bibliotecas não são lugares para depósito de livros. Depois da revolução feliz que foi a criação da rede de bibliotecas públicas que mudou o país - mais poderoso do mundo - estas instituições, passaram a ser pensadas também como lugares festivos, onde se pode estar a lê e gestar um mundo novo. Quando apanharemos essas lições? Penso que esse tempo está longe. Sim porque o que poderíamos apanhar de bom não apanhamos, mas sobra interesse nas futilidades e quinquilharias que eles produzem. 

Martine Franck

Foto: Henri Cartier-Bresson - As pernas de Martine, 1967.
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Martine Franck. Eis um nome. Descobri hoje este nome. Não sei como ele me escapou durante tanto tempo. Explico. Martine Franck foi a companheira de Henri Cartir-Bresson. Ela viveu com ele até a morte dele em 2004. Ambos foram fotógrafos e exerceram com igual maestria a nobre arte de plasmar instantes.  Ambos estiveram envolvidos em trabalhos que tinham como tema um ao outro. Mas coube a H.C-B. o lugar de eminência parda no mundo da fotografia. Ninguém que leve a sério o estudo da arte pode mesmo ignorar as suas estimadas contribuições.

Há anos estou envolvido no estudo e na apreciação da fotografia. Por esse tempo, Bresson esteve sempre presente nos textos, blogs e livros que ando lendo sobre o tema. Porém, o nome de sua companheira, nunca, antes de hoje, havia atravessado o meu caminho. Parecia que ela não existia. Foi em mais uma incursão por nomes de relevância no cenário fotográfico, que encontrei casualmente o nome de Martine Franck e pude assim finalmente encontrar a fonte do talento de Bresson. 

De cara sentir como se tivesse dado o primeiro passo para compreensão daquilo que julgava saber, mas estava enganado. Não sei nada sobre fotografia. Menos ainda sobre os grandes nomes dessa nobre arte. Apresso-me pois, para saber mais sobre Martine e assim parar de fazer figura de parvo por julgar com lupa tão míope um universo tão grande e variado.

Descubro que ela foi versátil em seus temas. Começou por cultivou o abstracionismo e o surrealismo. Dedicou-se, mais tarde, àquilo que se chama fotografia de rua ou fotojornalismo. Neste gênero demonstrou uma visão enternecida da realidade. Ainda mais caprichosos são seus registros no gênero retratista. Aqui ela transpôs as lições do retratismo ambiental de Arnold Newman e estabeleceu indubitáveis relações entre a pessoa retratada e o ambiente que mais a caracterizava. Veja a propósito o seu retrato de Foucault ou o registro do fotógrafo Paul Strand.


Foto Martine Franck - Michel Foucalt, 1978, Paris.
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Foto: Martine Franck - Paul Strand

Sobre esta série de retratos merece também destaque, os seus flagrantes do marido em ambientes bucólicos e idílicos, parte de uma nova fase do fotógrafo que deixou a máquina para se dedicar no fim da vida a pintura.

Ainda tenho muito caminho para percorrer. Devo essa lição a descoberta de Martine Franck, que me destituiu as certezas sobre o que conhecia e instaurou em mim o desejo de continuar perscrutando os mestres e suas divinas criações.  

Foto: Martine Franck - H.C.Bresson.
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Foto: Martine Franck - H.C.Bresson.


Mentes doentias

Há algo de doentio no fato de alguém ver imoralidade em tudo. Algo de muito perverso e perturbador se passa na cabeça de alguém que entende que o nu com fins a expressão artística é merecedor de reprovação.

Ao fim e ao cabo o que se passa mesmo é que quem assim age manifesta em si uma mentalidade reprimida fruta de uma experiência de vida limitada pela visão tacanha das potencialidades de um corpo.

As manifestações desse puritanismo estão por toda parte. Nos EUA quando foi lançado o álbum: Is This It dos Strokes a capa trazia uma surpreendente e insinuante imagem, de uma mulher que tinha sobre as nádegas uma mão pousada com uma luva preta. A foto é um primor, pelo que tem de sugestivo. E em arte a sugestão é tudo.


Tamanha ousadia foi tudo o que bastou para que os puristas se insurgissem contra o CD. Na tiragem seguinte do álbum, a capa original foi substituída por uma imagem inócua, porém, muito mais tranquilizadora das consciências moralizantes que vigiam o que podemos ou não ver.

Nos jardins de Garduño

Foto: Flor Garduño.

Encantam-me os trabalhos da fotógrafa mexicana Flor Garduño. Tenho um dos seus livros de fotografia bem à vista na minha estante. Ele está lá onde à mão pode alcança-lo com um simples esticar de braços. Tanta devoção se deve ao fato de que essa obra, que não canso de gastar os olhos, me põe, constantemente, a pensar, como são belas as coisas do mundo. Especialmente o feminino nelas.

No livro FLOR (é este o título da obra, homônimo da autora) podemos ver mulheres desnudas: cercadas, enfronhadas, carregando ou embrulhadas por flores. Tomadas apressadas as imagens poderiam dizer pouco. Porém, se pararmos para pensar que, a arte é um veículo que nos solicita a ultrapassagem dos significados imediatos para alcançarmos outros, as flores podem então, serem tomadas, por uma mensagem simbólica, que nos remete a beleza feminina e ainda, pelo fato de murcharem depressa, também podem sugerir a inconstância e efemeridade da vida.

Tenho ou não razões de apreciar o trabalho dessa mexicana?

O que tenho aprendido com os livros que leio e com os que estão na estante à minha espera

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Não crie expectativas, esse sentimento é corrosivo e acaba com suas melhores pretensões.
Saiba esperar pelos momentos de descoberta.
Não queira chegar ao fim para saber como a história acaba, viva-a.
Você nunca estará velho, para um grande desafio.
O melhor divertimento será sempre o elevado, não acredite que ele as vezes também pode ser cor-de-rosa.
Há sempre bons motivos para conhecer uma nova história.
Melhor uma traça amiga que uma estante vazia
Nem todo livro tem toda vida.
Não deixe que o desalinho da capa e a falta de capricho na edição determine o seu julgamento, você pode se surpreender com o que verdadeiramente importa: a travessia.
Uma vida não basta para os livros que desejo.
Depois da morte, não há tempo para pos scriptium.
A orelha segreda a história que ainda não li.
Os empréstimos tornam viúvas as coleções.
Sei tanto quanto os livros que não li.
Descobri que o que mais desgasta um livro é a falta de uso.



Há cheiro de podre em todos os lados

De tudo o que vivemos hoje no país, o que mais salta aos olhos é a arrogância dos que defendem legendas partidárias. A dar fé no que eles dizem, tem-se a impressão de que, eles sabem tudo, vêm andes de todos e estão tão certos de suas posições que, não pode haver erro ou engano no que pensam e fazem. Com tantos a saber de tudo e antever tudo antes de todos, como chegamos então, tão fundo e tão rápido, ao lodaçal em que estamos.  Estou farto desse fla-flu. Inunda-me o tédio. 

Religião e cultura

Foto: Rogério Soares, Catedral Nossa Senhora Santana, Caetité, 2016. 
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Em A Civilização do Espetáculo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa responsabiliza as religiões, especialmente a Cristã no Ocidente, pelo desenvolvimento das artes (música, pintura, escultura, arquitetura etc.). O alijamento das religiões, provocaria para o escritor, o engessamento das culturas tais como a conhecemos hoje e infertilizaria a vida a níveis inaceitáveis. Seria, portanto, deletério para as culturas, o fim das religiões. Pois em torno delas, seja para exaltá-las ou para criticá-las, viceja um campo muito propício à criação de expressões artísticas, que não são outros senão, formas dos homens externarem os desassossegos de uma mente deslumbrada com os mistérios do mundo.

Na biografia dedicada ao poeta Cruz e Souza, Paulo Leminski, recorda um pormenor de ter lido “no jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda” que nos faz pensar em termos mais claros sobre o papel das religiões na manutenção da vida e das artes: Lembrando as contribuições da Europa aos países da África o teatrólogo diz:  

“Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos.”

Como vemos, não era tolerável, mesmo para um intelectual de esquerda o fim das religiões, sobre pena de que esta precipitasse o fim das culturas. Abandonei a fé nas religiões quando ainda era um adolescente. O ateísmo que pratico desde então não me permite acreditar numa entidade que com força desconhecida governa o desgoverno do mundo. Sei, porém, reconhecer que, são as religiões, criadas a partir da perplexidade do homem sobre a sua condição, as grandes responsáveis por encorajarem e propiciarem, denodados artistas, caminhos para externarem as suas muitas inquietações sobre as faltas de sentido para a existência.  

Maquilar a realidade

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Steve McCurry é sem sombra de dúvida o mais reputado dos fotojornalistas da atualidade. Com mais de 40 anos de serviços prestado à arte de fotografar, ele se notabilizou para o mundo, cobrindo guerras e registrando com sensibilidade incomum, os dramas de homens e mulheres em zonas de conflito. Porém, hoje, ele se vê às voltas com uma discussão que põem em questão o seu oficio artístico e sua propalada sensibilidade. É que algumas de suas fotos publicadas em seu sítio na internet e mais algumas outras encontrados por jornalistas, sugerem que ele manipula as suas imagens. Alguns poderiam dizer: “que bobagem, o que há de errado em manipular as fotos?” Nada. Não há nada de errado em fazer mudanças nas fotos. Afinal de contas a imagem é dele. O problema é que McCurry sempre negou que usasse recursos para tornar as suas imagens mais expressivas. E para piorar a história, descobriu-se também que não são feitas apenas ajustes de contrastes de cores e tons, mas que são alterados elementos significativos das fotos sugerindo ambientes, situações e paisagens destituídas de veracidade. Fico aqui a pensar: o que há de verdadeiro no mundo? 

Fiéis


Foto: Rogério Soares. Igreja e seus fiéis. 2016.
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Ultimamente tenho ido à igreja. Não vou lá quando o padre ou os fiéis fazem a genuflexão e estendem as suas preces, em coro aos céus. Estou cansado de tanta gente a minha volta. Por isso, prefiro a igreja quando uns poucos a visitam. Gosto de ver o silencioso murmurinho dos que suplicam aos céus, remédios às suas chagas. Mas não são só estes os que lá vão. Também estão lá, os que buscam sinceramente expor as suas faltas. Esperam com isso ajustar as suas contas. Nessas horas os observo. Tiro foto. Penso comigo o que será que eles fizeram para pedirem remição ou qual foi a graça alcançada para estarem lá agradecendo? Não tenho resposta a estas perguntas. Quando eles se vão, volto a solidão. Agora tiro fotos do que me surge à frente. Em instantes a vida parece sem agravos e aborrecimentos. Sem pecadores ou redimidos sou só eu, as luzes, as formas, os contrastes e mais uma vez o silêncio divino. Mas é por pouco tempo. Logo a igreja volta a ser tomada por alguém disposto a emendar todos os seus vícios. 


Foto: Rogério Soares. Igreja e seus fiéis. 2016.

(A)moral

Foto: Robert Mapplethorpe – Homem em terno de Poliéster ,1980.
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Moral rígida e trabalho dignificador (entenda-se submissão canina à políticas semi-escravistas). Está é a receita completa para se dar bem na vida contemporânea. Todo o resto foi extirpado dos interesses sociais.

Frei Damião e os impressionadores de multidões.

Foto: Sebastião Salgado (Reprodução do livro Terra) Frei Damião evangelizando. 
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Muitas tradições se vão perdendo em nosso país. É o caso daquela que é conhecida como missionária. Missionários foram aqueles homens que devotaram as suas vidas a causa da bem-aventurança e por essa razão foram consagrados pelo povo como Santos vivos. Pelos Sertões adentro Padre Cícero Romão e Frei Damião de Bozzano, foram os nomes mais famosos dessa tradição no século XX. Antes desses, outros os precederam, é o caso de: Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, e talvez o mais antigo de todos, Frei Vidal da Penha, famoso missionário do Século XVIII que em uma de suas profecias previu que: “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Mais tarde, pela lei da convergência, o Conselheiro fará recair sobre si a lenda de que será ele, o autor dessa previsão. Em derredor desses nomes cresceu e prosperou uma veneração coletiva, alimentada pela crença popular nas qualidades espirituais desses homens, e claro, no temor infundido por eles em profecias que previam o fim das Eras. Segundo alguns dos seus inúmeros fiéis, a simples presença deles entre o povo, era capaz de suspender os muitos e agonizantes males, que afligiam os atormentados flagelados da seca, da fome e das injustiças sociais e os reconduzirem à paz e à serenidade, diante das durezas do Nordeste. Por essa razão acorriam a eles multidões exaltadas. Querendo fugir do inferno terrestre, ávidos campesinos buscavam as intervenções dos taumaturgos, na firme certeza de que com isso, estariam amenizando o seu fardo. Câmara Cascudo, ao que me consta não escreveu sobre Frei Damião, mas sobre Padre Cícero não poupou tinta. Sobre o Padim Padi Ciço, como era carinhosamente chamado pelo povo o Padre de Juazeiro, Câmara Cascudo escreveu em Vaqueiros e Cantadores, que ele: “não educou nem melhorou o nível moral de seu povo. Antes, desceu-o a uma excitação febril, guardando segredos de perpétua irritação coletiva, para mais decisiva obediência geral”.  Criticou ainda o padre, pela indulgência com que este tolerava os desmandos dos poderosos contra os menos favorecidos e seu ânimo bizarro por alimentar sobre si uma “onda fanática de ‘romeiros’ e beatos...”. Escusadas as críticas aos missionários, o certo é que eles se confundiram com a história do Nordeste, e não há hoje, como tirar-lhes a importância que o povo serenamente lhes foi consentindo.  Quando pequeno, na Paraíba, eu mesmo testemunhei por duas ocasiões a devoção do povo a esses missionários. Na década de 80 a minha avó me levou ainda criança para uma das missões do Frei Damião. As Missões eram, o nome atribuído pelo Frei Damião ao seu estilo de evangelização. Elas se caracterizavam por um certo ritual. Anunciava-se a chegada do Frei à cidade. Ao cair da tarde, o missionário era recebido e conduzido, geralmente em carreata, à igreja matriz, ali dirigia as primeiras palavras à multidão que o esperava, sedenta para ouvir as suas prédicas. Lá em casa ainda são recorrentes as lembranças desse encontro. Sempre que nos reunimos a minha avó gosta de lembrar que fui abençoado pelo missionário. Mais tarde um pouco mais velho, mas ainda criança, vi e assisti uma das missões do Frade na cidade de São Bento, interior da Paraíba, cidade onde passei a infância. A figura do personagem domador de valentes e guia de almas, nunca mais me saiu da memória. Ao escrever esse testemunho lembro vivamente o fervor do povo que sobre os cantos de “Frei Damião meu bom Frei Damião /O seu perdão numa confissão faz um bom cristão /Frei Damião meu bom Frei Damião / Eu sou nordestino, eu estou pedindo a sua benção...”, recebiam entusiasticamente o Frei Capuchino. Os versos são de Janduhy Finizola e ficou famoso na voz de Luiz Gonzaga que na década de 70 gravou a música Frei Damião. Esta não é a única homenagem do Rei do Baião ao missionário. Uma década antes Gonzaga gravou a música Meu Padrim (Frei Damião), uma composição do Frei Marcelino de Santana. Há ainda no Nordeste Brasileiro uma vasta produção literária dedicada ao Frei Capuchino e aos outros missionários. Recentemente encontrei por acaso no livro do fotógrafo Sebastião Salgado uma linda fotografia que retrata o Frei em missão de evangelização. A foto como era de se esperar é perfeita. Sobre ela podemos pousar o olhar e nos demorar longamente. Ela capta a atmosfera de devoção do povo ao Santo homem, que entre eles andou. Os pormenores que o autor incorpora na imagem: os pés descalços do Frei, a sandália abrigada ao pé do púlpito improvisado, a atenção no olhar dos homens, e mais o contraste do preto-branco da imagem que sugerem incontáveis coisas, fazem com que a foto não passe indiferente. Música, Literatura, Fotografia, fé, religiosidade, uma vastidão de manifestações atestam a importância incontestável desses impressionadores de multidões.


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Observação: A imagem que ilustra essa postagem foi retirada do livro Terra do fotógrafo Sebastião Salgado.  Sendo essa imagem objeto de direitos de autor, e a tal publicação o seu titular se oponha, ela será removida do blog, logo que recebida notícia do fato. Desde já o autor do blog explica que não há, na publicação da foto, qualquer intenção comercial. Esperando com isso não receber nenhuma restrição pela publicação. 

Correlato

Foto: Don McCullin, Soldado Americano ferido no fronte. Vietnã.
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Podemos olhar para uma fotografia e não encontrar nela nada que seja capaz de nos tocar. Há várias razões para que isso aconteça. Uma delas é o fato de que a fotografia, como de resto acontece com quase toda a obra mimética, fala a cada um segundo o seu próprio valor intelectual. Outra razão pode estar no fato do fotógrafo não ter habilidade de composição ou intenção de trabalhar a imagem para que esta produza uma mensagem que ultrapassasse o seu mero registro imediato, não tendo, portanto, outro sentido possível, a não ser àquele que a fez. Já quando o fotógrafo trabalha a imagem organizando os elementos a sua vista, de forma a estes desencadearem uma carga emocional no espectador, diz-se, então, que ele empregou os recursos capazes de formar uma composição significativa. Tão significativa que ele é capaz de mobilizar as emoções do espectador valendo-se apenas dos artifícios da composição. Na fotografia, a composição é tudo. O melhor fotógrafo não será aquele que espera que o acaso o premie com uma foto, que o distinga dos demais. Para que uma imagem resulte bem o fotógrafo terá que trabalhar a composição. Para isso, ele precisa organizar os elementos a sua disposição em: grupos de objetos, em situação, ou numa cadeia de eventos, de modo que os fatos internos da foto evoquem correlatos (entenda aqui como correlato, aqueles elementos comparativos que se faz entre duas coisas que se assemelham) que possam causar no expectador a emoção desejada. Tomemos, para tornar a compreensão mais simples, o exemplo da fotografia acima. Ela foi feita pelo fotojornalista Don McCullin. Na década de 70 ele cobriu a guerra do Vietnã. Durante uma incursão com os soldados americanos a um cerco numa vila vietnamita ele flagrou, em meio a refrega, um soldado ferido nas pernas, sendo socorrido por dois outros militares. A foto é um primor de composição. Nela McCullin enquadra os soldados tendo como referência as imagens de Cristo sendo retirado do calvário. De pronto a foto comoveu o mundo e de alguma maneira precipitou a retirada das tropas americanas que há décadas combatiam sem sucesso no Vietnã. Ao evocar a figura de Cristo em meio aos horrores da guerra, prefiguradas na imagem de um soldado ferido, McCullin provoca no espectador aquela carga de emoção que ele um dia já sentiu enquanto era doutrinado pela iconografia religiosa. A concepção fotográfica de Don McCullin elaborada do ponto de vista da religiosidade, apela aos sentimentos cristãos dos espectadores. Aludindo a figura piedosa de Cristo martirizada no madeiro, ele faz da foto um objeto significativo e capaz de falar a muitos pelo aparência, que vagamente faz uma foto de um soldado, se assemelhar a imagem de Cristo crucificado.

Pintura: A flagelação de Cristo. Caravaggio - 1607.



Erasmo Carlos - A Carta Do Índio


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Erasmo Carlos - A Carta Do ìndio

(Adaptação da Carta escrita em 1855 pelo Cacique Seattle da Tribo Dwamish - USA)..

O grande chefe branco
Quer comprar as nossas terras
Quer nossa amizade
Mas não precisa dela
Tão certo como as estações do ano
Trarão armas na certa
Pela paz dos nossos filhos
Vamos pensar na oferta
Ninguém compra ou vende o céu

Nem o calor da terra
Como podem comprá-los de nós?
A ganância do homem branco
Empobrecerá a terra
Deixando desertos e sóis
Jamais se encontra a paz
Na cidade do homem branco

Não se ouve a primavera
Nem o crescer do campo
Porém, se aceitarmos a oferta,
Imporemos condições
Daremos nossas mãos
Homens, animais e árvores
Vivendo como irmãos
Mais depressa que outras raças
O branco vai fazer
A sua desaparecer
Restará o fim da vida,

Mulheres tagarelas,
E a luta pra sobreviver
[Como um recém-nascido
Ama o bater do coração de sua mãe
Se vendermos nossas terras
Ama-a, como nós a amávamos
Protege-a, como nós a protegíamos
Ferir a terra é demonstrar
Desprezo pelo criador

Com força, poder e coração
Conserva-a para teus filhos
Nosso Deus é o mesmo Deus
Esta terra é querida por ele

Nem mesmo o homem branco
Pode mudar o nosso destino comum
Cacique Seattle,
Tribo Duwamish,
Washington, 1855,

Estados Unidos da América do Norte]

Os nossos grandes lideres e seus amantes

Foto: Cornell Capa, California. 1960.
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Um giro à volta e tem-se a impressão que, o mundo converteu-se ao fanatismo. As pessoas andam endeusando tudo: partido, seitas, agremiações, políticos, etc. Com predileção atualmente pelo deus partido. A ninguém parece suposto alguma dúvida, sobre seus pontos de vista. Enfronham-se nas bandeiras e defendem as suas cores, e não pressentem que elas exalam odores desagradáveis. Quem atentar para o que dizem as vozes que ecoam dos gabinetes e mansardas, não deixará de perceber que de lá falam todos aqueles que se sentem na posse da milagrosa bússola que aponta para o norte das decisões capazes de nos resgatará a felicidade geral. A dar ouvido a estas vozes, tenho a impressão que, será outro, o destino dessa grande nau em que todos nos metemos. Não falo isso aos amigos, porque chegamos ao estágio em que eles pressupõem que onde há crítica há desamor.

O monstro e o homem civilizado


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Há tempos ouvi de alguns amigos, que sofriam com medo da escalada da violência na minha cidade, o pedido de que as autoridades públicas locais, interviessem no caos instaurado e providenciassem soluções imediatas. Para minha surpresa os amigos não pediam mais escolas, mais saúde, mais justiça social para todos. Não lhes ocorriam que a fonte da violência pudesse estar na ausência desses bens às comunidades mais fragilizadas, mas numa suposta degeneração moral de alguns, somente corrigida com o amparo de velhos métodos domésticos. Eles clamavam pela imediata vinda da polícia do cerrado. Queriam o que de mais truculento, torpe e desumano, pode haver em matéria de polícia e se negavam a acreditar em outras alternativas além dessa. A solução sugerida, como visto, era a instauração de uma força policial que todos reconhecem como desrespeitosa dos direitos humanos, mas acredita, mesmo assim, ser esta postura um dado menor, quando está em causa a "restauração da paz e da ordem". Paz à custa de cassetetes e coturnos não é paz. Um Estado civilizado responde as demandas com racionalidade e espirito moderno. Vejam o caso que noticiam hoje os jornais. Vem do norte, a notícia de que uma juíza norueguesa decretou justa, a causa do extremista Anders Behring Breivik que, acusa o Estado Norueguês de lhe implicar um regime prisional desumano. Breivik está em completo isolamento. Desde que sua mãe morreu há três anos ele não tem mais contato com ninguém. Todos vão se lembrar de Breivik, ele está preso por ter assassinado cruelmente 77 pessoas na Noruega em 2011. Fez isso movido pelo ódio de imigrantes e contra o multiculturalismo. De pronto uma onda de intolerância passou a criticar a ação da juíza. Nos jornais os comentários reprovam, peremptoriamente, a ação que deu causa ao pedido do assassino. Invocando uma pretensa justiça que pensávamos superada desde Hamurabe, seguem-se discursos não condizente com quem acredita realmente na paz e na justiça. “Haviam de lhe fazer o mesmo que ele fez aos 77 seres humanos.” Diz um dos que comentam a matéria dos jornais. “...esses facínoras do oriente e do ocidente estão muito acima do nosso fraco poder de exaltar ou de rebaixar... Mata 72 pessoas e ainda é indemnizado! Kkkkkk.”, outro não deixa por menos e emenda. Causa-me espanto que, em pleno século XXI, alguns ainda não entendam que o horror dessa besta humana, não pode ser respondido por uma nação civilizada, com outra força, senão a lei dos direitos humanos que ele ignora e combate. Quando a vida se bestializa, ao ponto de andarmos clamando nas ruas o sangue dos monstros, passamos e nem percebemos aos estados primitivos que nega-nos o direito de sermos chamados Humanos. Ao nos barbarizarmos como aqueles que causa-nos espanto pelo seu comportamento deplorável, descemos como eles ao rés do chão e não podemos pedir justiça, porque esta não entende esse chamado para fazer derramar o sangue de quem quer que seja. Independente do fato monstruoso que ele cometeu, e por mais repugnante e inquietante que possa ter sido o seu comportamento, nada justifica que um Estado civilizado, infrinja seus valores e sua moral para se ombrear com os que querem que o ódio vença todas as causas. Não é uma questão de somenos importância. É por aqui que começa a distância entre um monstro e um homem civilizado.

Elefante manso

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Não temos uma revista dedicada à literatura. As editoras que um dia se preocuparam com a qualidade literária pagaram o preço dessa ousadia e hoje se encontram de portas cerradas.  Nos jornais, os suplementos literários, que já foram palco para grandes discussões, deixaram de ser importantes e desapareceram das páginas dos diários. Com eles sumiram também a figura do crítico, do ensaísta, do polemista e do intelectual, naqueles termos que postulava Ortega y Gasset em: A Rebelião das Massas, o indivíduo que: aclarava um pouco as coisas, enquanto os outros, pelo contrário, costumavam consistir em confundi-la mais do que já estavam.

Todas essas notícias deveriam nos sugerir que não andamos a ler nada e não estamos nem um pouco interessados com o mundo à nossa volta. Mas estranhamente, ocorre precisamente o contrário. Diz-nos um jornal português que, nunca andamos tanto com um livro à mão como agora. Nunca estivemos tão à frente do mundo no quesito consumo de livros como nesse instante. Ninguém nos faz sombra, estamos na crista da onda. Podem se rir, achar que é tontaria, desequilíbrio, mas o fato é este mesmo, nunca tivemos tantos livros em nossas casas como hoje. O mundo nos inveja.

Mundo estranho. Justamente quando passamos a ser os maiores consumidores de livros do mundo amargamos estatísticas que não condizem com um público ilustrado pelas letras. Ou vão me dizer que acham normal não termos revistas, jornais e intelectuais pensando e dialogando com esse mar de gente que anda a ler incessantemente? Talvez o fato de estarmos todos enfronhados pela cultura do entretenimento e da massificação, que rebaixou tudo ao nível das mentalidades debiloides, expliquem melhor esse fenômeno quimérico que é o Brasil de hoje.


Não somos leitores com letra maiúscula. Não estamos ansiosos em ler para nos encorajar a desempenhar o papel clássico do elefante na loja de porcelana. Somos na verdade consumidores de bens culturais que são vendidos pelos discursos persuasivos e aliciantes da publicidade. Basta-nos que o livro nos consinta o status simbólico de posse de algum bem, e assim ele terá cumprido o seu valioso papel de fazer-nos sentir menos estúpidos, diante de um mundo que só reconhece o valor material e que foi convertido ao atrativo comercial sem nenhuma reserva moral. 

Rogério Duarte rumo aos planetas celestiais.

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Deixou-nos ontem, três dias após completar 77 anos de vida, Rogério -Raghunatha Dasa- Duarte, Rogerio Duarte. Ele foi um ícone de nossa cultura. Sob sua batuta, o movimento Tropicalista ganhou forma e cores. Foi ainda importante na criação estética dos cartazes do cineasta Glauber Rocha.

Para mim, porém, ele significou um verdadeiro achado. Quando li a sua belíssima tradução do venerável livro Bhagavad Gita: Canção do Divino Mestre, que ele lançou em 1998, fui tomado por uma experiência que alterou a minha vida para sempre.

Sua intensa luz de amor à vida e sua sabedoria das coisas imperecíveis, ensinou-me que esse estágio da vida tem: percalços e acidentes, assim como alegrias e prazeres, não estando nenhum desses sentimentos acima nem abaixo, mas fazendo parte de um todo, que precisamos aceitar e não desistir das lutas ou nos afeiçoarmos demais aos prazeres enganosos.

"Lute apenas por lutar
sem pensar em perda ou ganho,
em alegria ou tristeza,
em vitória ou em derrota,
pois, agindo desse modo,
você, nunca pecará."